sexta-feira, 23 de maio de 2014

Evangelii Gaudium

Não à desigualdade social que gera violência

59. Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão
e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarreigar a
violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de
oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais
cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial
– abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da
ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece
apenas porque a desigualdade social provoca a reacção violenta de quantos são excluídos
do sistema, mas porque o sistema social e económico é injusto na sua raiz. Assim como o bem
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tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua
força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais
sólido que pareça. Se cada acção tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma
sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas estruturas
sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor. Estamos longe do
chamado “fim da história”, já que as condições dum desenvolvimento sustentável e pacífico ainda
não estão adequadamente implantadas e realizadas.
60. Os mecanismos da economia actual promovem uma exacerbação do consumo, mas sabese
que o consumismo desenfreado, aliado à desigualdade social, é duplamente daninho para o
tecido social. Assim, mais cedo ou mais tarde, a desigualdade social gera uma violência que as
corridas armamentistas não resolvem nem poderão resolver jamais. Servem apenas para tentar
enganar aqueles que reclamam maior segurança, como se hoje não se soubesse que as armas e a
repressão violenta, mais do que dar solução, criam novos e piores conflitos. Alguns comprazemse
simplesmente em culpar, dos próprios males, os pobres e os países pobres, com generalizações
indevidas, e pretendem encontrar a solução numa “educação” que os tranquilize e transforme em
seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os excluídos vêem
crescer este câncer social que é a corrupção profundamente radicada em muitos países – nos
seus Governos, empresários e instituições – seja qual for a ideologia política dos governantes.

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